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Férias sem paisFérias sem pais

Ia ter que faltar ao aniversário do pai e era isso que mais a preocupava antes da partida. Nas últimas férias de Verão, Rita passou um mês inteiro no Japão, integrada num programa da associação CIVS – Aldeias Internacionais de Crianças. No início, estava um bocadinho nervosa. Não dormiu durante as onze horas da viagem de avião e ficava maldisposta a seguir ao jantar. «Estava com saudades» e a consciência pesada por não poder estar na festa dos 40 anos do pai. Mas isso foi só nos primeiros dias. Depois, tudo passou e ficou a parte boa: a experiência de dormir em casa de uma família de outro continente, o convívio no acampamento com crianças de 11 anos vindas de todo o mundo e os amigos com quem ainda hoje fala pelo Facebook, a viver nos Estados Unidos, no Vietname, Austrália ou Luxemburgo.

A oportunidade de Rita surgiu pela mão da mãe, que a inscreveu na CIVS assim que ela chegou à idade de participar no primeiro campo internacional. Telma Sousa, hoje guia turística, foi ela própria monitora de um campo da CIVS, aos 19 anos, em Inglaterra. Chegou à CIVS através de uma colega de curso, participou numa «mini-aldeia» em Portugal e acabou por partir para Inglaterra em substituição de uma monitora que adoeceu à última hora. «Fiz o exame de curso e no dia seguinte apanhei o avião. Foi uma experiência inesquecível poder partilhar um mês com crianças e monitores de todo o mundo. Cada país tem o seu dia, em que apresenta uma dança, pode fazer comida... os miúdos vão conhecendo os hábitos uns dos outros e é vê-los crescer por dentro!», conta. «Desde essa altura que pensei: quando tiver filhos, hão-de vir para uma aldeia CIVS.»

Telma optou pela inscrição num campo intercontinental e não se assustou com a ideia da filha passar quatro semanas sem falar directamente com ela – os contactos com os pais são feitos pelos monitores por, como explica Rita, «haver pessoas que quando ouvem a voz dos pais ficam um bocadinho tristes». A mãe da Rita e da Marta, que ainda só tem nove anos, sabia exactamente como funcionam as aldeias da CIVS. «É tudo super organizado, há seguros, os monitores têm 21 anos e são pessoas responsáveis. Há toda uma instituição a funcionar por trás...», explica. Bastou-lhe, por isso, saber que a Rita queria ir. «Ela não é muito esquisita com a comida e essas coisas... só é um bocadinho tímida e esse era o meu único medo», confessa. Era um receio infundado. A Rita adorou e veio «com um inglês muito melhor, mais desenvolta, mais segura – até talvez mais independente».

Miúdos mais autónomos

Experiências como a de Rita «promovem a autonomia, a independência e a consciência de si próprio», explica o psicólogo Quintino Aires. Depois de passarem algum tempo longe dos pais e da família mais próxima, os miúdos «regressam ao ambiente da família e da escola, dos amigos, mais conscientes dos seus actos e das suas consequências e mais bem preparados para aproveitar as vivências de grupo». Crescem mais preparados para cuidar de si próprios – um aspecto fundamental numa sociedade em que «a autonomia tem vindo a ser atrasada», como lembra o especialista, com muitos jovens a adiarem as escolhas profissionais e a não se quererem comprometer nas relações» – opções que levantam «uma série de questões para a saúde e economia» de um país.

Para Quintino Aires, «há uma idade óptima para as férias sem pais e esse tipo de experiências, que é aos 12 anos». Por volta dessa faixa etária, «já há uma maturidade pré-adolescente que permite o distanciamento de uma figura de relação sem que a ansiedade dispare muito», explica. Mas é preciso também ter em conta o feitio e a vontade expressa da própria criança. «Estas experiências são importantes, desde que a criança as solicite, se não, às tantas, parece que são os pais que estão a querer ter férias...», diz, meio a sério, meio a brincar, Melanie Tavares, agora técnica no Instituto de Apoio à Criança, mas até há algum tempo psicóloga numa escola, em permanente contacto com jovens. A especialista sublinha, no entanto, que as férias longe da família podem ter um duplo efeito: não só o de promoverem a autonomia, mas até o de «melhorar a relação das crianças ou jovens com os próprios pais», dando o exemplo clássico: «Voltam cheios de saudades e até dão mais valor à sopa».

Sair do país

Melanie Tavares sublinha a importância das experiências no estrangeiro, por promoverem o conhecimento de outras culturas e Quintino Aires subscreve a opinião. «Nessas idades, eles estão a descobrir o mundo e é a olhar para as diferenças que nos descobrimos a nós próprios. Quando os miúdos lidam com outros hábitos, com outros modos de comer, de horários para tomar banho, etc. tomam consciência de si mesmos e também passam a aceitar e respeitar mais e melhor as diferenças», diz.

O confronto é mais imediato fora de portas, mas pode também dar-se cá dentro. Inês e Sofia tiveram essa mesma experiência antes de saírem para um curso de inglês em Inglaterra. Por iniciativa da mãe, as duas irmãs, de 17 e 15 anos, receberam em casa, em anos lectivos anteriores, um rapaz norte-americano chamado Mathew e Aaju, uma jovem da Gronelândia. Os dois jovens de 17 anos vieram ao abrigo do programa Intercultura – AFS, que promove o intercâmbio de jovens para um ano de estudos secundários numa família de acolhimento noutro país.

«Há um mês recebi uma carta da mãe do Mathew. Está a trabalhar no Brasil. Ele gostou imenso da forma de viver dos portugueses, da forma como se cumprimentam com beijos, da proximidade, da comida... Acabou por voltar para fazer um ano de estudos avançados de Português», explica Dulce Veríssimo, professora de Biologia e mãe de Inês e Sofia.

Quando surgiu a oportunidade de as filhas passarem uma semana em Inglaterra num curso intensivo de inglês, por volta dos 13 anos, Dulce não hesitou. A proposta era da própria escola. Os miúdos ficavam alojados em famílias de acolhimento, tinham aulas durante a manhã numa academia de línguas e teriam que se deslocar sozinhos, de metro ou autocarro. «Passado pouco tempo, ligaram-me a dizer que só tinham duas toalhas para quatro lá em casa, a contar que no primeiro dia ficaram à espera que as chamassem para jantar e só depois perceberam que naquela casa cada um arranjava o seu prato... tiveram que aprender a viver noutras condições e gerir o dinheiro que levavam, o que também foi bom», diz a mãe.

Inês conta como começou por estranhar a rotina familiar, o ter de se levantar às seis da manhã e o facto de não se usarem guardanapos numa das casas onde ficou. Mas realça como viu o inglês melhorado e outras vantagens da experiência, que entretanto já repetiu: «O facto de estarmos sem os pais contribuiu para ganhar outro à-vontade para falar com as pessoas, tomar a iniciativa de perguntar uma direcção, saber ler um mapa...», explica.

Crescer e Aprender

Naquele que foi o seu primeiro acampamento nacional como escuteira, aos dez anos, Ana Pegado não aguentou tanta gente e confusão, chorou e acabou por pedir aos pais que a fossem buscar. «O acampamento era de uma semana, mas eu não aguentei de saudades e fiquei só três dias», conta a rir. Apesar disso, guarda boas recordações das actividades e garante não ter ficado traumatizada. Depois dessa data, a enfermeira, hoje com 27 anos, perdeu a conta às vezes que acampou com o grupo de escuteiros, sem os pais, nas férias do Natal, na Páscoa ou no Verão, em Portugal, na Polónia ou na Eslovénia.

«Toda a gente goza com os escuteiros, por causa das fardas e tal...», começa por dizer. Ela não. «Nos escuteiros aprendi a conviver com miúdos com diferentes valores e realidades familiares, aprendi a partilhar, a saber respeitar os outros e os seus limites, aprendi a cozinhar, a gostar da natureza, a ler os sinais de orientação das estrelas, a orientar-me por mapas e bússolas...», diz.

Num acampamento partilha-se a roupa do corpo se chove e a comida quando falta e sobretudo aprende-se a lidar com todo o tipo de pessoas, de diferentes idades, com diferentes feitios, valores e perspectivas. «Hoje não tenho qualquer problema em falar em público, em lidar com pessoas com idade para serem meus pais ou meus irmãos mais novos, em desenrascar-me, em pedir um favor ao amigo de um amigo, uma informação...», diz. Coisas que, em parte, reconhece deverem-se a um somatório de experiências sem pais, sempre em férias com os escuteiros. «Não conheço nenhum escuteiro já adulto que não seja desenrascado, seja anti-social ou tenha problemas de relacionamento», garante.

João Vasconcelos não é tão peremptório, mas reconhece que as experiências de viagens ainda hoje lhe são úteis na forma como lida e recebe os clientes no hostel Goodnight Backpackers, considerado um dos melhores do mundo, na baixa de Lisboa.

«As viagens surgiram de forma natural», diz o empresário de 30 anos. Aos seis anos, passou férias com a avó em Madrid, depois visitou sozinho um primo na Suíça e, com 11 anos, viveu a mesma experiência de Rita, numa aldeia da CIVS, no Japão – férias que viria a repetir no Brasil e nos EUA – sempre longe da mãe, «mais organizada e óptima com mapas», suspira.

Manual para pais Antes da partida, é importante reunir algumas informações básicas: 

- Saber quem será o adulto responsável pela criança e, se possível, conhecê-lo; - Assegurar questões como seguros de viagem e saúde; n Informar-se sobre a melhor forma de contactar a criança ou o adulto responsável e quais as normas da organização no que respeita a telefonemas e outros contactos; - Conversar com a criança e incentivá-la a cumprir as regras do país ou local de acolhimento, ainda que sejam diferentes das de casa; - Assegurar que a criança sabe o que fazer no caso de se perder; - Com adolescentes e jovens, reforçar os esclarecimentos sobre consumo de drogas e doenças sexualmente transmissíveis.

Moradas úteis

Intercultura - AFS Portugal Experiências de intercâmbio em famílias de acolhimento no estrangeiro – para jovens dos 15 aos 18 anos. Web: www.intercultura-afs.pt Tel.: 21 324 70 70

CISV – Aldeias Internacionais de Crianças Campos de férias internacionais para crianças de 11 anos e adolescentes de diferentes idades, em vários países do mundo. Web: www.pt.cisv.org Tel: 213 426 426

International House Cursos de Verão no estrangeiro para crianças em escolas International House. Web: www.international-house.com Tel: 213 151 493/4/6

Corpo Nacional de Escutas O grupo mantém actividades durante todo o ano lectivo – os acampamentos realizam-se no Verão e nas férias escolares do Natal e Páscoa. Web: www.cne-escutismo.pt